Olho para gerações anteriores a mim, do meu próprio sangue e sinto que observo o primórdio das sensações. O que significa hoje em dia o amor, se é que ainda corre por alguma rua nesta cidade escura chamada mundo? Não sei o que seja, o que foi ou o que possa vir a ser, sei lá se sempre existiu ou não, nem sequer sou ninguém para responder. Ninguém é. Contudo tenho a certeza que supera exactas reacções químicas entre o cérebro e os intestinos e as artérias. Não tenho nada, nem quero responder dessa maneira.
De um lado vejo um casamento de 55 anos, do outro lado agarro na mão um universo de estatísticas ignóbeis de divórcios, que me empurra para uma vala decadente onde apenas uma voz se insurge lá no alto anunciando a nossa era de amor seco - Não devem crer no amor! - dizia. O que é isto? Que sociedade é esta afinal, a minha? Será que desistiram com a força imperial desta voz...ou será a pressa - a busca incessante deste amor que nunca chega, nunca espera, nunca vem e faz toda a gente sair de casa nua a correr pela estrada, sem nada calçar, com a cara vermelha de sangue a gritar?
Não sei o que seja. Mas haverá alguém disposto a trocar um programa de televisão pela minha voz? Alguém que queira saber do que não me rio? Ou quem arrisque espelhar um futuro em mim? Haverá alguém, neste mundo, aqui, que me olhe nos olhos cansados e veja apenas uma cama tão suave onde dormir? Porque se não há ninguém, digam-me já, que eu desisto e rumo ao nada nesse turbilhão de gente.
Haverá alguém capaz de encontrar em mim o relógio parado do sentir?
As palavras são bruscamente vociferadas, à luz de uma sociedade em decadência de TUDO! Até daquilo que supostamente faria todos serem melhores consoante a sua interpretação, aquilo que num ledo beijo cessa a irritação, ou aquilo que, num breve sopro, faz esboçar um sorriso no dia mais infeliz.
ResponderEliminarE as tuas, as tuas palavras, tão duras para um mero espectador, talvez, batem nos corpos que ainda tentam manter-se livres e ilesos desta conspurcada sociedade.
Ouviste uma voz... suficiente para tornar a tua realidade num homem nu "a correr pela estrada, sem nada calçar, com a cara vermelha de sangue a gritar"...
Raros são aqueles que não procuram um meio de atingir a felicidade de forma rápida, e o mais irónico é que a encontram apenas os poucos que se recusam a viver de uma forma fácil. Só esses têm a sorte de descobrir o Amor. Aquele que nunca acaba...
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