Não mãe, não quero outro estojo. Não, não quero um estojo igual ao que perdi, um novo, que o substitua, tal e qual era o antigo, agora brilhante, sem cheiro e lindo.
Não quero, já disse que não quero.
Não quero que tornes a minha vida mais bonita. Deixa que ela corra, por si. Feia, curta ou morta. Deixa.
O estojo foi, com ele as canetas, as borrachas que apagaram o pior trabalho, os lápis afiados depois do melhor desenho, os papeis das conversas. Um gancho, uma moeda, um clip talvez. Um cheiro a carvão, um cheiro a mar, um cheiro a nada.
O estojo foi, sim, e com ele uma parte de mim, que já se soltou, que já voou.
Não queiras que ela volte, não queiras reparar a ferida, não queiras substituir o que poderia ter sido por um agora vai ser. Porque não vai ser, nunca será e eu não quero e seja.
Agora já a ferida sarou, já novos estojos vieram, já outras canetas fazem os testes, outros lápis desenharam o que sou, outras borrachas me desviaram. Agora é tarde demais. Ou antes, não é, porque nunca foi cedo ou certo para nada.
Volta só com aquilo que és. Fala baixo, por favor. Descansa e não incomodes o que aqui se constrói. Constrói o que te resta ao meu lado, não em mim, e deixa-me estar. Enquanto isso vamos tecendo as nossas mantas, que nos aconchegarão quando um dia não nos tivermos.
Até já.

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