bamarte

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Nunca pensei com o que poderia lidar numa viagem pedestre. Nunca. Talvez por isso tenhas aparecido.
“Passo por uma rua estreita, junto a uma vedação. Os carros voam nos dois sentidos, presos à miragem da vida, às horas dos compromissos. Eu não os tenho. Passo, brincando com colinas de entulho, de pedras brancas. Equilibro-me na estreita separação de onde eu devo estar e onde posso morrer. Porém, agora não passam carros. Um silêncio gigante envolve a minha música ensurdecedora. Olho a vedação. O vento faz tremer o seu fim, ou antes, o término imperfeito dessa vedação. Um buraco, um vazio na vedação revela sem peias o outro lado da rua: uma linha de comboio, tão visível sempre. Afinal a separação onde há poucos segundos deslizava, brincando, nada separa. Existe, apenas, talvez pertencendo ao lado onde devo estar. Devo estar aqui, ali passam carros e agora, do outro lado da vedação, posso morrer. Posso porque alguém aqui morreu um dia, se não, porque haveria de ter nascido este buraco?”
Contaste, estranhamente descontraída sobre a minha cama. Eu olho o teu corpo, ligeiro e calmo. És infinitamente inconsciente, és jovem e estúpida.
“Olho também para as flores. Há imensas flores no meu caminho. Existem as habituais frouxas e tristes flores, que despontam uns amarelos ou rosas. Vulgares, mortiças e detestáveis. Olho com especial brilho para outras. Flores verticais, curiosamente erectas, de pétalas amarelas. Pobres flores, parecem não conhecer a vida...lutam por se manter direitas e belas, com toda a força, sem saber que não poderão parar o vento. Na sua luta constante acabarão por envelhecer, morrer lentamente sofrendo, enfraquecendo. Nunca se salvarão dessa podridão floral. Olho outras, igualmente erectas, contudo de pétalas rosas, sendo o caule completamente nu, ao contrário das anteriores. Espero que estas, em menor número, se consciencializem mais cedo do seu rumo. O mesmo. Sempre o mesmo.”
Pareces querer continuar o monólogo, estando tão vagarosa, de mãos no abdómen, confiante. Eu olho para ti, na mesma comodidade e encanto. Esses estados imprevisíveis.
Há horas esses mesmos sentimentos, e talvez alguma paixão, assolavam-me ao ver-te.
És bastante mais nova, tens tudo para me dar e eu a ti nada tenho a não ser um adeus forte.
“E tu és velho. És velho e devias ter nojo do que fizeste comigo. Agora, embora pareça que não, tenho uma extrema raiva de ti. Logo, poderá passar, enquanto como à mesa com os meus pais, de cabeça baixa. Logo e amanhã doer-me-á o coração. Depois, nada disto se vai revelar tão duro como uma nova descoberta numa viagem pedestre. Tão duro como a vedação corrompida. Tão duro como prever o futuro de uma flor.”
Adeus.

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