"Joana Francisca era a rapariga que eu amava. Discreta ou bastante espontânea, não se deixava intimidar, nem sequer conhecer facilmente pelo que de tão único escondia a sua fachada. Tinha os cabelos levemente loiros, ondulados, não ondulados ao vento, mas belos em si.
A primeira vez que a vi foi na sala, ampla e iluminada. Rabiscávamos, escreviam, alguns. O silêncio faiscava-me atrás da orelha, como se me importunasse a fala, a mão. A minha arte. Importunava-me solenemente, tornava os ouvidos doridos, estendia-se a todo o corpo. Precisei dela, da única pessoa ali que não conhecera, ainda. A um canto da sala, não sei, nunca chegarei a saber o que fazia. Sei que o meu impulso foi chamá-la para mim. Não naquele momento, mas seria um começo.
A partir desse dia as presenças foram constantes. Apaixonei-me por ela. Com a sua timidez inicial, tão ingénua e calma. E uma turbulência tão inesperada quando se integrou. Integrou na sala, na amplitude de todos os objectos, na luminosidade. Em mim. Integrou-se em todo o seu esplendor, aos poucos mas tão vivamente. Nunca me esquecerei do seu sorriso. E ela nunca saberá.
Joana Francisca foi quem eu mais amei na minha vida. Joana Francisca nunca existiu."
OH-MEU-DEUS
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