bamarte

sábado, 15 de outubro de 2011

Um dia apenas para entremear o reboliço da vida com uma outra coisa qualquer. Um prazo limite para viver, fora daquilo que é a minha vida. Deixo para trás planos de design num sétimo andar de um prisma maciço, os emails das universidades, questões de futuros mestres e planos para exposições ou concursos nacionais. Deixo tudo por um dia.
Quase voltando à ansiedade que repetidamente foi cá morando, conduzi o mais rápido, corri no alto dos sapatos de tacão, descalcei-os apressadamente, enfiando tudo o que me parecia necessário para um dia. Um dia e não o dia, finalmente. Os pés descalços sobre o soalho corriam em pontas e enfim, livre de ganchos, calças justas e elevadores nos calchanhares saí pela porta dona de mim mesma. Guiei já os semáforos feriam os olhos na escuridão da noite - é Inverno e são 19h.
Vou algures para o interior onde alguém me acolha ou não, desde que não ouça nada mais a não ser o que me queiram contar. 
Depois de algures horas, várias recusas e uma irritação já crescente aliada a um certo desespero, vejo o que possa ser a solução.
Uma pequena casa térrea irradia luz ténue e alaranjada nos candeeiros exteriores. É lá mesmo que vou buscar um refúgio.
Embrulhada num longo casaco, já faz frio, bato à porta e recebe-me um magnífico cheiro a sopa, uma senhora já de idade, e uma cozinha antiga. Sou convidada a entrar, talvez seja já um hábito ali. Á mesa, grossa e madeira velha, estão sentados o que julgo o esposo daquela amável senhora e um outro rapaz, ainda jovem como eu. Pelo aspecto citadino pergunto desconfiada se é filho, pelo que fico a saber que não - Foi um outro que cá veio bater...veja-se lá, vêm cá todos bater! Hoje temos cá dois.
As horas passam pelo jantar, pelo serão e pela ceia, sempre envoltas de histórias populares, risos descrentes, expressões mirabolantes e explicações, mitos e morais para que nós jovens “nunca enveredemos pela má fama da solidão”. No fim, já nem a manta verde escura me aquece no sofá que partilho com outro turista de estradas. A certa altura, e à ausência dos patrões, travamos uma mais directa conversa. Confesso que os olhares já se cruzaram diversas vezes, o próprio me confessa. Confessa até que me julga conhecer, talvez de outra vida, é arquitecto e bastante invulgar. Odeia gravatas, festas confusas e imposições - realmente o seu aspecto nada me conduziria para tal, com o cabelo encaracolado e desgrenhado, a tshirt e os calções descomprometidos. Escreve deliciosamente. Gosto.
Ao início da manhã os nossos corpos, cada um para seu lado, ainda aqueciam graças à manta, chove lá fora. Ele quase cai do largo sofa, estamos tortos e não consigo evitar um riso. Dois completos estranhos tomam juntos o pequeno almoço, os patrões parecem ter saído para as colheitas, deixaram um cesto apenas com verduras e frutas caseiras. Tudo me parece muito estranho, no momento.
No momento, apenas.
Ao que parece, e depois de bastante tempo investigando, muitos casais tenho conhecido que trouxeram também igual cabaz, nunca conseguindo descrever-me exactamente o local. É sempre uma lentidão e obscuridão que o rodeia, e uma chuva que nos faz saltar. Já mais de mil caminhos desbravei em busca daquela pequena casa que parece ter desaparecido num nevoeiro atroz.
Quero continuar à procura, talvez pelo mistério e aventura, talvez por agradecimento...já que hoje conheço arquitectura melhor que ninguém.

2 comentários:

  1. olhe, adórei... e nem sei bem porquê, não é verdade? mas acho que conheço esse turista :b os dois, aliás

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