bamarte

sábado, 11 de junho de 2011


A nostalgia invadiu-me, como noutros dias já o fez. Desce o grande álbum da prateleira mais alta e profunda do armário. Caem fotos soltas de quando o tempo já não chegava para deixar as memórias assentar. Quando já eram filhos que se casavam, outros que acabavam a universidade. Outros que bebiam demais, uns mais novos que se animavam ainda com o início do ano escolar e os mais pequenos que choravam por comida.
Na altura eu era das que corria à papelaria, descendo a rua na mais fugaz das alegrias e chegava a casa com uma saca cor de laranja, tão bonita, com o meu novo material. E tu, que já nos esperavas com a mesa enorme e adornada, cheia de apetites para o lanche, sentavas-te calmamente para me ouvir.

Continuo sem colar as fotos que deixaram para voar. Nada vibra aqui em casa. Música, televisão ou correria lá fora. Apenas um silêncio imperador que me move. Éramos 14, hoje menos e tu já cá não estás. E por isso, neste dia, faço o que te prometi: voltar ao que fomos.
Voltei primeiro ao que sou - vesti-me, arrumei minimamente as aguarelas em cima da escrivaninha, os papéis na mesa e saí, com a chave e umas bolachas nas mãos. Entrei no carro, com pó no tablier e uns certos plásticos nos bancos de trás, talvez uns ventos em remoinho e brinquedos. Conduzi até nós, pela auto-estrada cerca de duas horas e meia.
Voltei depois ao que fomos - caminhei pela rua acima. A papelaria hoje já não existe, uma casa destroçada apenas, vandalizada e imersa na escuridão da cidade. Virei à direita, onde metade do que foi ainda hoje é, inclusive a nossa casa. E sem lhe tocar, nem sequer no portão adormecido em restos de verde escuro, nem sequer na pedra do muro, seca e repleta de fendas, nem sequer nas heras que crescem livres, sentei-me no banco de ferro fundido, que curiosamente continua de frente para ela, aconchegado pelo mesmo plátano de sempre.
Voltei ao que fomos, reconstitui tudo o que permanece em mim neste local. E sabes, lembro-me tão bem do baloiço que quis fazer na árvore do jardim e que tu nunca deixaste.
Daqui dá para a ver, velha, mas bonita, ainda respondendo ao vento e lançando, de quando em quando, folhas ao rodopio.
Dá para te ver a ti também, a fotografar-nos todos juntos sob a sua sombra, ao lado do baloiço que nunca existiu para ti.

1 comentário:

  1. As palavras brotam com uma subtileza tremenda e tudo parece tão real, a ficção toma-nos, um enredo imaginado bastante substancial.
    Vejo o cenário nascer a cada pormenor que nos é oferecido e paro, não penso mais, não analiso, nada vejo, fico deslumbrado.
    Tento ver mais longe, mas não estou certo da existência do que vejo e pela incerteza do que acho certo me perco, tantos sentidos... só um certo!
    Incompetente.
    Incapaz.
    Inábil.
    Sinto-me isso e muito mais depois de apreciar algo melhor. Direi, até, que a escrita é algo tão espectacular que não são todos que podem dizer que a sabem fazer e grande parte do que se vê ai é lixo.
    Acabemos com as vidas e transformemos em algo sério.

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