bamarte

domingo, 17 de abril de 2011

mais uma vez estou debruçado sobre esta varanda de ferro fundido, de preciosos ornamentos dotada, mas já velha pelos anos que passaram. mais uma vez é o único sítio que tenho para passar as tardes.
sem banco, sem cadeira, é de pé que me vejo. é de pé de vejo a vida passar, justamente abaixo desta minha velha varanda. outrora olho para trás, para dentro da minha casa. se é que isto é uma casa
data de 1999, o documento de compra. tinha eu 20 anos nessa altura. e sei que escrevia já, por entre copos de absinto e folhas de caderno amareladas. eu estudava, se é que aquilo seria estudar, sobre uma escrivaninha que ainda hoje existe, do lado esquerdo de quem sai da minha varanda.
quem entra no meu prédio, alto e torto ao vento, não sabe o que há de esperar. digo isto porque precisamente quando entrei pela primeira vez no meu prédio, em 1999, depois de assinar o documento de compra da minha casa, e depois de me ter apaixonado por esta minha varanda, foi isso que senti. Não saber o que esperar.
é um sentimento lixado, porque lixa a alma. lixa o coração, depois os pulmões, porque todos sabem que o que lixa um ou outro, lixa o outro também. e depois lixa tudo o resto. 
eu sofro disso. tenho a alma lixada por não saber o que esperar. ser novato e andar pela rua, de porta em porta a pedir coisas, a comprar coisas, a dizer coisas, a contar coisas, a olhar coisas, a fazer coisas, é tão bom e tão inútil. sei-o agora porque o fiz, e sinto-me repugnavelmente bem vivido, por tê-lo feito e poder agora, depois de maduro, analisar.
eu sofro disso. tenho a alma lixada por não saber o que esperar. não é não saber esperar. saber esperar eu sei, até demais. fico em pé a tarde toda à espera, olhando as cabeças lá em baixo, pequeninas e soltas, esperando. mas aí surge o meu grande abismo, do qual não me seguro, do qual nada me salva. não sei o que esperar. nunca.
nunca sabemos. isso provoca uma tristeza imensa. feliz aquele não sabe que o não sabe. porque eu sei disso e vivo na mais apertada das vivências, à margem de uma existência digna, em pé, na minha velha varanda. nunca sabemos. simplesmente a infância só nos traz inconsciência demais para que pensemos nisso. a juventude só nos traz rebeldia demais para o mesmo. e a duração só nos traz coisas. coisas, simplesmente coisas, que chegam para uns, não para outros.
a mim nada me chegou, nem coisas nem notícias desse mundo. e por isso, em pé, nesta varanda, sofro de uma vida lixada, sofrendo por saber esperar, mas sem saber o quê. analisando.
a-n-a-l-i-s-a-r. aaaa. naaaaa. liiii. saaaaaaaaaaar.
esse acto cruel de pura auto-destruição massiva e inconclusiva.
  1. é um acto decerto, por ser um verbo
  2. será cruel, por não me fazer sentir bem
  3. pura auto-destruição: porque nada mais me deixa pensar, cortando-me todos os motivos para alguma coisa.
  4. massiva: porque me destrói em torno de mim, nada mais à volta, criando um espaço apagado apenas na minha área de existência-não-existência.
  5. inconclusiva: pois de todo esse infinito trabalho, nada se retira.
nada se retira, nada se conclui. de mim nada cresce, apenas nasce para morrer. nada consegue viver em mim, um ou dois dias, nada mais.
analisar é tudo o que me resta. injusto ou não, tudo o que me resta nesta vida é o mesmo que me mata. por isso em nada critico o amor, a família ou a vida absurdamente normal. a minha anormalidade mata-me tal e qual a normalidade de quem seja. 

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