Estás mais bonita que nunca. Hoje, iluminada pelo luar, que é meu também, a tua beleza brilha em uníssono, nada desgastada pelo tempo.
A ti devo tudo, sem nada dever, porque nada me pedirias em troca, a não ser um beijo talvez.
Hoje aprendi na escola a somar e o dever é compor um texto sobre o teu emprego. Como somos muitos, á volta de trinta, devem-se ter esquecido da minha perda.
“O teu nome é Maria José, tens 41 anos, feitos precisamente ontem, dia 9 de Outubro. E digo isto porque é importante:
Sempre viveste no campo, na tua vida de solteira, rodeada de animais curiosos e sonoros, de natureza infindável. E por entre primos esquecidos, os teus risos ecoaram naquela herdade vários anos, retendo para a zona do olhar paisagens inesquecíveis e noites celestes duma imensidão tão só. Desses anos, disseste-me tu uma vez, lembrar-te tão bem do Outono de Outubro. As cores transformavam-se tão delicadamente, de verdes a castanhos mortos, por entre vivos laranjas, por vezes vermelhos, e pálidos rosas. Também os amarelos brilhavam ao meio dia, nos cestos de marmelos colhidos pelas criadas da tua avó, prontos para serem o recheio do teu lanche da escola. Entre elas Gualdina que só gostava da Primavera, e Júlia, a eterna amante do Verão.
Gualdina era uma quase ansiã de 54 anos, forte e vivida, de faces inchadas e rosadas, de humor bastante variável, embora caído para o amargo. Casada com Fernando Felizberto, Gualdina vivia as aflições das divertidas noites do seu Fernando, odiando o cheiro a vinho e vinagre, tão próprio naquela quinta por esta altura, tão próprio e tão empregnado nas camisetas lá de casa, infelizmente, o ano inteiro.
Júlia era a moça morena e curvilínea, adorada pelos rapazes do trigo. As suas formas esculpidas, escondidas pelo avental e vestimentas de burel, faziam sonham qualquer alma masculina, contentada apenas com pequenos decotes esquecidos, olhares descuidados ou ondulações dos seus longos cabelos negros. Júlia tinha os seus 23 anos, nunca se apaixonara, nunca dali saíra. Filha de Neto Constâncio e Gertrudes Maria, revoltava-se contra a doutrina católica: apenas cria no que via - as searas de trigo, o luzir dos pirilampos.
Costumavas segui-las nesta altura, esperando aliviar a ansiedade de ter presente o teu aniversário. E entre as longas e memoráveis conversas, as Estações foram o mote da tua preferida. Com ela arrancaste de Júlia o motivo do seu gosto pelo Verão: como os moços andavam todos por fora vendendo os excedentes ou no pico oposto da quinta colhendo as ameixas, ela corria rumo ao lago. Era um lindíssimo local, dotado de uma pequena cascata, que brilhava tão mais no Verão, envolta de verdejantes plantas e árvores frondosas. De Gualdina sabias apenas que a estranheza do seu carácter adorava o zumbir dos insectos renascidos dos Invernos rigorosos.
E desde esse dia a paixão que tinhas pelo Outono cresceu e afirmou-se, fortaleceu o que já imaginavas. Sempre que retornavam esses envelhecimentos coloridos da flora, o teu coração de novo vibrava, mais do que qualquer outro sentimento deixava, na tua infância regrada, graças às cores. Mexiam contigo, revoltavam-se na tua cabeça, nasciam.
E para bem deste mundo e de muitas imaginações, foi-te concedido o maravilhoso estojo de pintura do avô Bernardo.
Hoje eras uma das pintoras mais talentosas e mais bonitas.”
Se hoje tivesse aprendido algo novo. Se hoje me pedissem para escrever sobre ti, sobre o teu emprego, assim o faria, tal e qual como a alma me chamou a dizer.
Assim o sinto, comigo toda a vida. E embora te tenhas ido daqui faz bastante tempo, o tempo não se foi, e passa rápido como o balouçar do carrossel ao teu colo ou lento como as viagens de verão ao teu lado. Mas passa sempre. E com ele as estações, trazendo algures o Outono de Outubro, se assim te alegra.
P-A-R-T-I-C-I-P-A
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